A Ford se despede de forma ingrata e egoísta. Faltou pelo menos um muito obrigado por tudo que viveu ao longo de seus quase 20 anos em Camaçari.

1
Compartilhe:

O Ano era 2001, a expectativa tomava conta de toda Camaçari, da Bahia. A inauguração da fábrica da Ford foi um evento que literalmente parou o município e atraiu todos os holofotes. Eu estava lá, como repórter da extinta TV Camaçari, tinha a missão de registrar tudo para quem estava em casa e vibrava, mesmo de longe, a vinda do desenvolvimento.

No evento, já com os quase de cinco mil trabalhadores devidamente fardados, a emoção tomava conta de cada cantinho do gigantesco espaço que se formava o Complexo Industrial Ford Nordeste. Lembro-me de como se fosse hoje, os olhos de alegria de quem foi contratado, o orgulho das autoridades dos diversos setores da sociedade, e o entusiasmo e a sensação de dever cumprido do grupo político pela chegada da montadora na Bahia formado por: os senadores Antonio Carlos Magalhães, Paulo Souto, Governador César Borges e o então prefeito Tude e vice Helder.

Sim, dever cumprido pois, havia sido travado uma guerra partidária, fiscal e econômica na época. A nova fábrica da Ford, tinha o projeto inicial de ser instalada no Rio Grande do Sul, mas o então governador Olívio Dutra (PT)questionou o contrato firmado com o ano anterior que tinha que repassar R$ 418 milhões (valores da época) para capital de giro, obras de infraestrutura e concessão de incentivos fiscais; então decidiu romper o acordo, isso no ano de 1999.

O governo baiano entrou em cena, utilizou de articulação política e pressionou o presidente da República Fernando Henrique Cardoso a alterar a lei que estabeleceu o regime automotivo para o Nordeste, e mostrou punho forte. Nos jornais da época, chegou a fazer uma campanha midiática  convidando a montadora “ venha para a Bahia, aqui a gente honra os compromissos e está sempre andando na frente”. O apelo surtiu efeito. A rotina de reuniões era constante, os representantes do governo e da multinacional chegaram a sobrevoar as terras de Camaçari para localizar a melhor área e depois traçar tudo em planta.

Em julho de 1999, então os baianos clamavam: A Ford é nossa! O início de um caminho que trouxe muita alegria, empolgação e crescimento para os camaçarienses que viviam a chegada de uma nova era.

O município e o estado preparava com capricho a instalação. Na época implantaram o Projeto Amazon, onde jovens eram treinados e os futuros funcionários da montadora eram qualificados e se familiarizavam com todo processo de produção dos veículos. Na época até o sistema de ônibus foi modificado para atender as exigências da unidade automobilística.

A comércio comemorava, o setor de serviços e da indústria também davam o novo passo. O sentimento materializado naquele mês de outubro de 2001, em que a cada setor apresentado naquele clima de festa, de inauguração era a certeza de uma mudança de vida, uma esperança de dias melhores, profissional e financeiro para os 5 mil trabalhadores diretos e outros 50 mil indiretos.

Hoje, após seus quase 20 anos de atuação no município, A Ford se despede de forma ingrata e egoísta. Ela vai embora sem olhar para trás, esquecendo o calor humano que aqui recebeu, do esforço e do suor que muitos derramaram dentro do Complexo Automotivo, alguns até lesionados. Se despede sem dar a chance de uma conversa, uma clara explicação, um pelo menos muito obrigado por ter chegado no auge a marca de produção de um veículo a cada 80 segundos, a lançamentos que entraram para história da montadora como o Ford KA, EcoSport; e a produção de 200 mil motores 1.0 flex só em 2016.

Mas, vida que segue, lamentar agora apenas pelas famílias que foram pegas de surpresa e que a partir desta terça-feira (12) já amanheceram desempregadas; tendo que no susto, reprogramar a vida e acreditar que darão a volta por cima!

E como todo bom baiano que não guarda mágoa, estaremos de braços abertos para novas oportunidades!

 

Carluze Barper – Jornalista

 

 

Compartilhe:

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui