No mês em que é marcado o ‘Dia contra a Discriminação Racial’, 90,8% da população ainda amarga experiências de preconceito no Brasil

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Por Márcio Barbosa

No calendário oficial, o último dia 21 pode ter passado despercebido para muitos. Mas a data, instituída pela Organização das Nações Unidas como o Dia Internacional contra a Discriminação Racial, carrega um dos episódios mais violentos da história recente: o Massacre de Sharpeville, ocorrido em 1960, na África do Sul, quando 69 pessoas negras foram mortas ao protestarem contra leis que restringiam sua liberdade de circulação.

Mais de seis décadas depois, o episódio não é apenas memória — é espelho. E o reflexo no Brasil revela uma realidade que ainda insiste em se esconder atrás de discursos superficiais: o racismo segue estruturando desigualdades profundas.

Dados recentes mostram que o país ainda está longe de atingir níveis aceitáveis de equidade racial. O Índice Sintético de Igualdade Racial (ISIR), que mede o avanço na redução das desigualdades, registrou apenas 0,501 em 2023, em uma escala que vai até 1. Na prática, o número expõe um país que permanece distante da igualdade.

A percepção da população reforça o cenário: 90,8% das pessoas pretas e pardas afirmam já ter sofrido algum tipo de discriminação, segundo levantamento do Observatório da Saúde Pública divulgado em 2025. O dado desmonta a ideia de casos isolados e evidencia um padrão estrutural.

Desigualdade que atravessa o cotidiano

Em cidades como Salvador — considerada uma das mais negras fora do continente africano — os impactos do racismo se manifestam de forma ainda mais visível. Diferenças no acesso à educação, renda, saúde e segurança revelam que a desigualdade racial não é abstrata: ela molda trajetórias e limita oportunidades.

Para o professor adjunto de Publicidade e Propaganda da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), pesquisador e autor premiado, Márcio Barbosa, o país ainda evita enfrentar o problema com a profundidade necessária: “O racismo no Brasil não se sustenta apenas em atitudes individuais, mas em estruturas históricas que organizam quem tem acesso a direitos e quem permanece à margem. Quando os indicadores mostram estagnação, estamos falando de um sistema que continua funcionando para excluir.”

Barbosa, que também atua como consultor em diversidade, mentor em afroempreendedorismo e criador de iniciativas como o podcast AfroDivergentes, destaca que os impactos vão além da esfera social:

“Estamos diante de um fenômeno que atravessa a economia, o mercado de trabalho e até as relações de consumo. Ignorar isso não é neutralidade — é conivência com a manutenção das desigualdades.”

Compromissos internacionais e desafios internos

Na tentativa de avançar, o Brasil apresentou em 2023, durante a Assembleia Geral da ONU, a proposta do ODS 18, voltado à promoção da igualdade étnico-racial, ampliando os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. A iniciativa sinaliza um compromisso institucional, mas os dados mostram que a transformação ainda caminha em ritmo lento.

Para Márcio Barbosa, o desafio é coletivo e urgente: “O 21 de março não pode ser tratado como uma data simbólica ou protocolar. Ele precisa ser entendido como um ponto de inflexão. Ou enfrentamos o racismo de forma estrutural, com políticas e mudanças reais, ou continuaremos reproduzindo um modelo de sociedade desigual e violento.”

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